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ADESG - Pesquisa descreve comportamento de abelha que poliniza plantas do cerrado e caatinga

Pesquisa descreve comportamento de abelha que poliniza plantas do cerrado e caatinga

Esclarecer as interações comportamentais das abelhas é um dos grandes desafios da ciência, tanto para a compreensão da sua biologia, como para se ter subsídios para sua proteção e conservação. Pesquisadores do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP acabam de dar enorme passo nesse sentido, ao detalhar as interações comportamentais de fêmeas da espécie de abelha Euglossa melanotricha, que poliniza constantemente cerca de 30 famílias de plantas, entre elas, duas mil espécies de orquídeas, e estão dispersas em áreas da caatinga e do cerrado.

Segundo a pesquisadora Aline Candida Ribeiro Andrade, autora do estudo, a estrutura de ninhos dessas abelhas foi descrita apenas para 20% das espécies, dentre as mais de 200 conhecidas. Isso, somado à raridade em encontrá-los, torna o conhecimento sobre o comportamento das fêmeas reprodutivas da espécie imprescindível para compreensão da biologia e do comportamento social das espécies.

As abelhas da tribo Euglossini possuem diversidade de sistemas sociais, podem viver solitárias ou em associações onde há uma dominante com, no máximo, mais quatro fêmeas num mesmo ninho. O estudo de Aline mostra justamente essa rara situação de variação na produção da prole, devido ao parentesco das abelhas em ninhos com muitas fêmeas (multifêmeas). “Os modelos teóricos preveem competição entre elas pela reprodução, independente do parentesco. Não sabemos se é uma situação rara ou se é resultado de poucos estudos detalhados sobre comportamento social das espécies. Para as pesquisas feitas até o momento, em poucas espécies foram descritas muitas fêmeas nos ninhos.”


Aline diz que, em ninhos com multifêmeas, as abelhas podem ou não ter relação de dominância e subordinação. Em suas observações nas famílias de Euglossa melanotricha, as dominantes monopolizam a reprodução e concedem maiores chances de reprodução às fêmeas subordinadas não aparentadas, se comparadas às fêmeas aparentadas, aquelas que são irmãs ou filhas da dominante. As fêmeas subordinadas aparentadas têm menor taxa de sucesso reprodutivo, pois possuem esperança de herdar o ninho, já que fundar sozinha é mais arriscado. Assim, as fêmeas subordinadas não aparentadas não têm o incentivo parental, e para continuarem cuidando da prole, necessitam de um incentivo reprodutivo maior, ou seja, de maior participação na produção dos ninhos para permanecerem auxiliando a dominante. “Isso mostra que as abelhas conseguem reconhecer, por meio de interações comportamentais e pistas químicas, negociar e manter a estabilidade do sistema com base em contratos sociais”, esclarece a pesquisadora.

Para realizar a pesquisa, Aline acompanhou durante três anos catorze ninhos com multifêmeas de Euglossa melanotricha que foram mantidos em caixas de observação. Ao nascerem, as fêmeas receberam uma marcação individual. “A partir da análise do extrato do perfil químico cuticular que cada fêmea possui, foi possível comparar os componentes presentes e, assim, diferenciar cada uma individualmente”, diz Aline.

Segundo o orientador do trabalho, professor Fabio Santos do Nascimento, da FFCLRP, as dominantes de Euglossa melanotricha permanecem mais tempo no ninho, comem os ovos das subordinadas e os substituem pelos seus, não coletam alimento e não participam da manutenção do ninho. “A próxima etapa do estudo se baseará na hipótese de decisão seletiva da remoção dos ovos. Se a taxa maior de ovos comidos é de fêmeas ou machos e, ainda, se essa variação é influenciada pelo parentesco”, afirma Nascimento.

A pesquisa deu origem ao artigo Reproductive concessions between related unrelated members promote eusociality in bees que foi publicado no dia 23 de maio, na revista Sientific Reports do Grupo Nature. O trabalho é resultado da tese Estrutura genética e sócio-etológica de Euglossa melanotricha Moure 1967 (Hymenoptera, Apidae, Euglossini) mediada por sinalização química e relações de parentesco intracolonial, defendida em maio de 2015, no Programa de Pós-graduação em Entomologia da FFCLRP.

Fonte: Por: Gabriela Villas Boas, do Serviço de Comunicação Social do Campus de Ribeirão Preto

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