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ADESG - É preciso abandonar a noção de uma hierarquia entre as ciências, defende livro

É preciso abandonar a noção de uma hierarquia entre as ciências, defende livro

O bate-papo sobre o trabalho entre irmãos que atuam em campos aparentemente bastante diversos, na maioria das vezes, não costuma passar disso: uma troca de curiosidades mútuas sobre o universo de cada um. Quando um destes irmãos é um filósofo das ciências humanas e outro um bioquímico com uma visão abrangente das diversas ciências, ideias bastante elaboradas e originais podem surgir, e até dar origem a um livro.

Foi o que aconteceu com Ricardo e Walter Ribeiro Terra, ambos professores da USP – Ricardo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e o Walter no Instituto de Química (IQ) -, autores de Interconecting the sciences – a historical philosophical approach, lançado este ano pela Lambert Academic Publishing. “Acabamos percebendo que os buracos que existem entre as ciências exatas, biológicas e humanas não são tão grandes assim e fomos buscar, inicialmente no desenvolvimento destas ciências ao longo do tempo, onde estavam os ganchos”, conta Walter.

Nessa análise, uma das primeiras percepções que eles confirmaram foi a de que a biologia tem uma característica de historicidade. Como assim? Ora, nada se desenrola no mundo dos seres vivos desatrelado de um componente temporal – e se pensarmos na Teoria da Evolução essa relação é ainda mais evidente. “Esse é um conceito que já foi proposto há algum tempo, mas trouxemos a ideia de que essa historicidade da biologia não é diferente daquela das ciências cognitivas nem das ciências sociais”, conta Walter.

Emergência

A crença positivista é a de que, com o tempo, vamos conhecendo cada uma das ciências e reduzindo a mais complexa à menos complexa. “A noção de emergência diz exatamente o contrário: apenas com as propriedades químicas não podemos prever as propriedades biológicas, e só com as propriedades biológicas, não podermos prever, de maneira determinista, as propriedades da cultura”, esclarece Ricardo. O que o livro propõe, portanto, é que é possível fazer a interconexão entre as ciências, mas não uma redução de uma à outra.

Ainda restaria, porém, um corte aparente: de um lado estariam as ciências sociais, cognitivas, e biológicas – ditas históricas – e, do outro, as exatas. Mas mesmo a física, que costumamos pensar como algo sólido e determinado, também trabalha com fenômenos complexos.

“Muitos físicos estudam sistemas que chamamos de fora do equilíbrio. Como uma gota de tinta cai na água e se espalha? Por que a previsão do tempo é tão caótica? Por que não pode ser definida em uma equação? Trata-se de uma outra categoria de fenômenos, fora do equilíbrio, e que jamais serão totalmente deterministas, mas sim probabilísticos”, explica Walter.

O turbilhonamento da água é outro bom exemplo: quando a água está sendo aquecida, até um certo ponto não acontece nada fora do esperado. Mas se o aquecimento for intensificado, o sistema sai do equilíbrio e começam subir colunas de uma maneira não passível de ser prevista. “Até estruturas surgem de forma inesperada”, diz o bioquímico.

Assim, a ideia é de que a natureza está organizada em planos, que não são redutíveis um ao outro, e com propriedades que não são dedutíveis a partir das partes. O todo é mais que a parte. Que as propriedades de uma molécula presente em um ser humano não são capazes de definir as propriedades de um ser humano parece óbvio. Mas “pelo estudo dos átomos também não teremos acesso às propriedades da molécula”, destaca Ricardo.

Além da Física

Com tudo isso, ainda hoje é forte a visão de que a química e a biologia “da física vieram e à física retornarão”, ou seja, que os todos os fenômenos, reações, e até o mais complexo dos seres vivos, ao serem decompostos em suas menores partes, podem ser compreendidos pelos princípios da física. “No passado se achava que se uma proposição da física não se aplicava à biologia era porque a biologia era subdesenvolvida. Ela ia se desenvolver e uma hora aquilo ia se aplicar a ela”, relata Walter. “Mas ninguém hoje vai ter coragem de dizer que a biologia é subdesenvolvida, uma ciência que conseguiu o controle do genoma, a manipulação de uma bactéria, entre outros avanços”, acrescenta Ricardo.

Ressalta-se assim a inadequação de se usar as mesmas abordagens – as próprias noções de lei, teoria, dedução – para refletir sobre ciências que lidam com objetos de diferente natureza. “Embora eu estude insetos, meu trabalho é com enzimas, que é uma parte, vamos dizer, um pouco mais ‘matematizável’ da biologia. Mesmo assim, aparecem elementos da evolução que obrigatoriamente devo levar em conta para conduzir as pesquisas”, exemplifica Walter. “Ouço o discurso dos meus colegas e percebo que ele é positivista – mas isso fica no discurso, pois na hora de fazerem seus experimentos e darem suas interpretações eles não são positivistas.”

Fica a sensação de que o cientista em geral pensa com pouca profundidade sobre o que faz. “A ciência, como aprendemos, nos leva a fazer as coisas sem raciocinar ou filosofar em cima”, diz Walter. Mas isso afeta o resultado do trabalho científico? “Não dá para dizermos que a prática científica é pobre pela filosofia pobre que o cientista tem sobre ela. Mas se me perguntarem se faria diferença se os cientistas pensassem com mais abrangência a respeito do que fazem, a minha sensação é de que sim, faria” afirma Walter. “Nós desconfiamos que algumas hipóteses valiosas podem estar sendo perdidas por isso, mas este seria assunto para um próximo livro”, completa Ricardo.

Mais informações: emails warterra@iq.usp.br, ricardor@usp.br

Fonte: Por Luiza Caires Usp On Line

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