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ADESG - A reinterpretação histórica da Geopolítica

A reinterpretação histórica da Geopolítica

As grandes transformações que ocorreram no mundo nas três últimas décadas, dentre as quais tem um grande peso a expansão universal do espaço cibernético, carrearam, como consequência natural, notáveis transformações na geografia humana no planeta. Mudanças que se traduzem em uma reinterpretação histórica da Geopolítica e no questionamento de muitos de seus pressupostos, os quais eram conceituados de forma determinística pelo discurso clássico das ciências políticas.
Denominamos de Geopolítica a ciência que pretende interpretar os fenômenos que permeiam a política nacional ou internacional no estudo sistemático dos fatores geográficos, econômicos, raciais, culturais e religiosos. Desde a criação do termo pelo renomado cientista político sueco Rudolf Kjellen (1864-1922), em 1916, em seu famoso livro em que consagra o Estado como organismo vivente, a Geopolítica desenvolveu seu conceito básico segundo o qual os Estados possuem muito das características dos organismos viventes.
Ao mesmo tempo, se anuncia a ideia de que um Estado teria de crescer, expandir-se ou morrer dentro das “fronteiras vivas”. Devido a isso é que tais fronteiras têm uma natureza dinâmica e são susceptíveis a mudanças. A Geopolítica é uma ciência que através da Geografia Política, da Geografia Descritiva e da História, estuda a causalidade espacial dos acontecimentos políticos e seus futuros efeitos.
A Geopolítica teve grande aceitação na Alemanha no alvorecer do século XX e atingiu grande difusão durante a primazia do regime nazista. O general alemão Karl Haushofer (1869-1946) modernizou a Geografia Política utilizando-a como instrumento que justificasse a expansão da Alemanha durante o Terceiro Reich e desenvolvendo as teorias do espaço vital do geógrafo e etnólogo alemão Friedrich Ratzel (1844-1904) - que notabilizou-se por ter criado o termo Lebensraum -, apoiadas pelo professor sueco Rudolf Kjellen. Países como a Rússia, a China, e o Japão também deram grande importância a esta ciência durante os anos trinta e quarenta do século passado, como meio para atingir o poder global.
A utilização propagandística da Geopolítica acarretou, após a derrota alemã na Segunda Guerra Mundial, seu descrédito e esquecimento, sobretudo no âmbito acadêmico. Não obstante, alguns segmentos, principalmente militares e diplomatas, seguiram interessados por este ramo da Geografia, na qual podia ler-se os acordos explicitados na Conferência de Yalta, onde ditaram as premissas ordenadoras do mundo pós-guerra e que, certamente, moldaram os paradigmas mantenedores da Guerra Fria.
Entretanto, as condições que emolduravam o conflito Leste-Oeste e os ideais democráticos do mundo ocidental fizeram modificar substancialmente seus fundamentos e objetivos. Daí se originaram novas teorias emanadas por potências como Inglaterra, França e Estados Unidos, que se orientaram basicamente a exercer o controle em determinados espaços terrestres e marítimos considerados chaves, o que se materializa por meio de uma gravitação estratégica e econômica, sem necessidade de perpetrar uma anexação territorial do tipo formal.
A expressão prática desta visão está consolidada no Tratado de Defesa do Atlântico Norte (Otan) e foi sobejamente testada com a crise dos mísseis, ocorrida em 1962. Fica bastante claro que sem os parâmetros ordenadores da Geopolítica, o mundo teria sido arrasado por uma hecatombe nuclear.
Após a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, que pôs fim à Guerra Fria, a Geopolítica passou a retomar, paulatinamente, o interesse perdido e voltou a crescer ao amparo das tensões internacionais surgidas com o desmembramento da União Soviética. É nesse cenário que emergem os Estados Unidos como a superpotência única, sem contrapesos imediatos. Esta situação os incentiva a iniciar o desenvolvimento de uma política de poder tendente ao controle do mundo, e que tenta legitimar sobre as bases de ser o vencedor da Guerra Fria e de sua superior qualidade econômica, cultural e militar. Dissipa-se assim o tradicional conflito Leste-Oeste e começam a ser mais notórias as diferenças no que concerne a níveis culturais e de desenvolvimento do eixo Norte-Sul.
O Estado-Nação continua sendo o elemento básico do sistema internacional que aglutina a identidade nacional, a coesão de um povo e mantém a sua soberania. Entretanto, já não constitui o único ator relevante, e a soberania muitas vezes deve subordinar-se à conveniência de acatar as regras impostas pela globalização. No cenário atual surgem novos e atuantes atores. Entre estes podemos enumerar os blocos econômicos regionais, as reagrupações de Estados objetivando a defesa mútua, as grandes empresas multinacionais e as organizações não governamentais. Entretanto, a Geopolítica segue vigente, com novos atores e cenários, porém em franco desenvolvimento.

• O autor é Coronel-Aviador; membro emérito do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, pesquisador associado do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército e conselheiro do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica.

Fonte: Manuel Cambeses Júnior

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